E ela merecia. Havia a custo conseguido romper as amarras invisíveis de uma relação que havia sido a muito consumida pelo vagar do tempo. Queria sentir na cabeça palpitante, no corpo frenético, no badalar da madrugada, no zunzunzun de vozes incessantes, instigadoras, novas, como que um descarregar daquelas mágoas acumuladas até então, no sufoco de um casamento, na ansiedade de uma separação.
Ambos queriam um ao outro, de maneiras diferentes. Não sabiam como se conciliar.
Ele a entendia, assim sabia, já havia sentido. Não conseguia era reproduzir, para condizer e conviver. Ele suspeitava de truques para desfazer a situação, se fazer ausente, se fazer indiferente, ela correria por ele? Aquela velha competição com o orgulho próprio, aquela velha aposta de quem vai perder um pouco da auto-estima ao recorrer primeiro ao telefone... Costumava ser sempre ele a perder...e ainda que desse certo, que ele ganhasse, que ela ligasse dando um grito por sua companhia, pra ele seriam apenas os espólios de um golpe executado friamente. Depois de ter criado um hábito, uma presença na vida de alguém e sumido, o mais a se esperar era ser procurado.

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