Nossa foto ainda está sobre a mesa. Jogada a um canto, como para ser desprezada, coberta de pó e fumaça, mas presente e forte em sua discrição. Meu olhar mudou, todavia: fiquei lúcido. Não se surpreenda com a afirmação, pois que se naquela época me pressionavas a ter escrúpulos quanto ao que eu colocava em minha veia, vejo hoje que era você mesma que corria por elas. E tinhas tal poder de entorpecimento! Ao paraíso me levou durante estações seguidas, até que um dia eu me acostumei .
Quem tinha o paraíso como normal só conseguia enxergar o inferno, que para mim ali estava, prestes a me engolir quando o chão que tu me davas parecia começar a ceder e esfacelar sob meus pés. Comecei a agir por medo, a sem querer implorar indiretamente, depois diretamente e, então, precipitaram-se as crises de abstinência.
A foto fala muito comigo. Minha expressão extasiada em conforto e inocência, possuído e dominado por carícias: parece bom, mas não foi. Foi, sim, um soldado que se ajoelhou e achando que idolatrava um Deus, na verdade, pedia misericórdia ao cano frio que lhe encrespava a nuca. Os olhos dela são os de quem rende.

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