domingo, 30 de novembro de 2008

Ma Chérie (Quand Même)



Nossa foto ainda está sobre a mesa. Jogada a um canto, como para ser desprezada, coberta de pó e fumaça, mas presente e forte em sua discrição. Meu olhar mudou, todavia: fiquei lúcido. Não se surpreenda com a afirmação, pois que se naquela época me pressionavas a ter escrúpulos quanto ao que eu colocava em minha veia, vejo hoje que era você mesma que corria por elas. E tinhas tal poder de entorpecimento! Ao paraíso me levou durante estações seguidas, até que um dia eu me acostumei .
Quem tinha o paraíso como normal só conseguia enxergar o inferno, que para mim ali estava, prestes a me engolir quando o chão que tu me davas parecia começar a ceder e esfacelar sob meus pés. Comecei a agir por medo, a sem querer implorar indiretamente, depois diretamente e, então, precipitaram-se as crises de abstinência.

A foto fala muito comigo. Minha expressão extasiada em conforto e inocência, possuído e dominado por carícias: parece bom, mas não foi. Foi, sim, um soldado que se ajoelhou e achando que idolatrava um Deus, na verdade, pedia misericórdia ao cano frio que lhe encrespava a nuca. Os olhos dela são os de quem rende.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Na mesa de bar

Pra se notar que é possível contrariar a razão conscientemente. Pra se ver que a vontade prevalece sobre ela– os nominalistas estavam certos.
Eu ignoro a razão que me diz “vá pra casa que a verdade não está em seus vícios”, que não é por aí o caminho para a paz (encontrar o que falta seja lá o que for).

X

Incômodo de ser que implica no querer perder a consciência.

Na segunda hipótese, fui fraco hoje. Mas o hoje, apesar dessa fraqueza, que eu admito, foi mais que isso. Não era só a vontade de me sedar. Era uma aflição por aventura, uma obsessão antinatural* por novas experiências.
- Não, eu não poderia ir para a casa. Não porque fosse errado, era o certo, na verdade/ Mas eu não queria! Deveria? Será que o que eu faço é realmente errado? É, de fato, eu sei, é! Porque antes de meus pais falarem (e eu sempre desconfio quando eles falam, que aqui isso), já me sinto mal.

Mas como diferir entre o certo e o errado absoluto e o certo e o errado que me é ditado pela subjetividade deles?
Acho que de modo algum quero me tornar o que eles querem que eu seja sem que antes prove a mim mesmo, com motivos que me convençam, que eu deva ser aquilo.
(Existe algo que se deva ser?)
Porque, sim, implicitamente eu acredito que para mim exista um destino, algo possivelmente já estabelecido e que mesmo que não seja o incorporar perfeito (o que me seria revelado pela sensação de realização, de descoberta, de satisfação, uma sensação que supera o certo e o errado banal, que é o meu certo, que seja tão certo que supere a diferenciação entre certo e errado! Por ser tanto o meu caminho que eu nem sequer me lembre de questionar sobre essa decisão – de uma clareza tal que eu não me pergunte sobre a lucidez.

*Concebo sem perceber que a obsessão é antinatural e, talvez, por isso mesmo não a veja como certo...Por ser em excesso: obsessão.

Conclusão: Mesmo tendo aversão ao moderado, vejo nele o caminho, que é o certo e que, no entanto, não consigo seguir. Por isso mesmo tento refutá-lo, para ser coerente comigo mesmo. Ou seja, por preguiça, falta de vontade, ou alguma explicação que está em meu subconsciente, não consigo me ausentar disso que resulta em minha auto-destruição.

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Como se perceber que maluco está?
Maluquice, pra mim, agora seria entregar esse caderno nas mãos das pessoas ao meu lado. Mas o ato não é propriamente maluco, apenas convencionalmente maluco.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Divago

O dia amanheceu glacial. É a primeira vez que noto em algo assim, o Domingo, normalmente cinza, está branco, como o chão de pedra fria, como o algodão do meu casaco, como minha cabeça depois de perceber o que pode ter representado a noite passada. Uma impressão inicial que se confirmou um pouco mais, a percepção de mais um dentre nós que percebe a beleza, um companheiro de jornada. E Autour de Lucie soa como a alegria, minhas plantinhas crescem, apesar de uma delas estar mostrando um problema crônico: as folhas mais baixas por alguma razão sempre ficam amarelas e caem, mortas. Isso me incomoda, suspiro, não sei como ajudar, não sei nem ao menos se preciso. Penso que talvez seja natural a essa espécie, perder seus membros, matar parte de si para crescer em proporção, até quem sabe superior, em outra extremidade. Preciso comprar meu tempo para o futuro, em breve não poderei mais me dedicar a passatempos tão alheios a correria material. Tenho que começar o quanto antes.

Resmungo

Fui armado para combate, queria vê-la, não sabia mais nada. Havia arrumado um pretexto descente e agora era só me fazer de convidado dos outros. Mas como agir? Falar-lhe? Conversar como gente? Não consegui, emburrei no meu canto, na minha rede. Não tinha coragem de olhar-lhe nos olhos, não queria conversar, e somos nós duas pessoas de olhares expressivos. Fiquei a ouvir sua voz... Cantava, era só a ver.. Ela fala de um modo alegre, com um tom que não deixa entrever anuviamentos, pra quem olha parece até que não se preocupa, mas isso pra quem não pergunta também.... eu soube perguntar. Enfim, tentava conquistar essa alegria com minhas tristezas, com minhas cenas dramáticas e uma coleção de “adeuses” teatrais, do lado dela emburrei muitas vezes, como uma criança estúpida que necessita de atenção, sem ter a malícia, a frieza, a tenacidade para ganha-la através de meu próprio esforço. Antes disso caia como já aniquilado em seu colo, a fazer com que ela entendesse que eu finjia não sofrer (mas que sofria, sofria, sim!), que era grande demais pra mim. "Sou fraco", dizia, "perdi pra você. Tens-me em chave de pescoço. Tens-me apaixonado, menina!". E já que não aconteceu.. estou ainda cá embaixo nesse buraco do qual só se sai remando terra. Tentando achar uma filosofia que suplante essa dor, um entezinho que sussurre coisas revitalizantes ao ouvido, coisas que me façam ver a beleza da fortaleza, a dignidade da solidão, que me faça ver as coisas ordenadas e bonitas tendo um objetivo em mão.

domingo, 9 de novembro de 2008

Sobre um relacionamento

Ele tinha medo de não conseguir se controlar, de assim engolir sua liberdade em dentadas egoístas. E para ele não havia opção, estar com ela, optar por ela, dar a ela os mínimos momentos de seu pensamento diário, já o comprometeria em seu amor, que ele pretendia manter como em potencial. Armazenado, intacto ele estaria para o desabrochar em conjunto quando enfim ela se cansasse de sua recente realidade.

E ela merecia. Havia a custo conseguido romper as amarras invisíveis de uma relação que havia sido a muito consumida pelo vagar do tempo. Queria sentir na cabeça palpitante, no corpo frenético, no badalar da madrugada, no zunzunzun de vozes incessantes, instigadoras, novas, como que um descarregar daquelas mágoas acumuladas até então, no sufoco de um casamento, na ansiedade de uma separação.

Ambos queriam um ao outro, de maneiras diferentes. Não sabiam como se conciliar.
Ele a entendia, assim sabia, já havia sentido. Não conseguia era reproduzir, para condizer e conviver. Ele suspeitava de truques para desfazer a situação, se fazer ausente, se fazer indiferente, ela correria por ele? Aquela velha competição com o orgulho próprio, aquela velha aposta de quem vai perder um pouco da auto-estima ao recorrer primeiro ao telefone... Costumava ser sempre ele a perder...e ainda que desse certo, que ele ganhasse, que ela ligasse dando um grito por sua companhia, pra ele seriam apenas os espólios de um golpe executado friamente. Depois de ter criado um hábito, uma presença na vida de alguém e sumido, o mais a se esperar era ser procurado.