Ruth. Não bastava ser fervorosa, ela nunca se livraria de seu câncer. As contas desfiando por seus dedos, uma após uma, outra após a outra, dia e noite, o cristo a olhando, que ódio aquela figura não lhe inspirava. O algoz de seus dias, impositor de muros.
Tenho um amigo que possui outra espécie de muro, uns o conseguem enxergar por entre, outros ricocheteam e zunem em uma antipatia mal compreendida, despeito de uma ofensiva inexistente - tarado ele é, mas daqueles que não dão corda e nem se apercebem disso.
Afinal são tarados aqueles que espiam demais ou pretendem alimentar sua curiosidade e jogar resíduos intrigueiros pelas quadras anexas. Tarados de amor pela vida em alguma estatística. Muito baixa.
Mas o muro de Ruth não era da mesma natureza que a de Pedro, que ainda era um pouco peneira, o muro de Ruth era de todos e seu particularmente ali, naquele momento em que lhe restavam (necessario fechar os olhos) trinta mil expirações – o era gradativamente desde que recebera a notícia.
Fora seu falecido esposo que a dera, ela não suportava médicos, não podia com os jalecos brancos, talvez porque fosse em parte uma louca temendo ser descoberta. Ele não temia a morte e por isso nem mesmo chorara, a tristeza ficava para o acaso, para após o girar da roleta. Então ele sentiria sua falta como se lhe houvessem tirado as víceras e nunca mais voltaria a gozar a vida como naqueles anos que precederam. Não, ele não sabia disso, e se pudesse escolher entre desvelar ou não, ele por certo não o faria.
- Estive com o doutor hoje.
- […]
No estágio em que as coisas caminhavam, não bastou a Eusébio mais do que uma piscar de olhos para permitir a Ruth possuir a certeza já ansiada de sua morte.
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Um comentário:
Eusébio é muito nome de Nelson Rodrigues!
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