terça-feira, 24 de novembro de 2009

Varanda

Caminho à varanda
Caminho a varanda
Caminho, oh, varanda,
Mas afora não caminho, não

Não...
Lá nada aflora, tudo desbota.
Morre em germe: tudo é verme
Morre em podridão

Minha varanda é uma espera
E assim espero eu...
Sobre ladrilhos brancos
Pés descalços na cerâmica
Olhar cansado de tanto perscrutar
Uma vida na escuridão

Olhos alertas,
Mais intencionados que os meus
Me vêem sem serem vistos
E ainda assim...não calam, não.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Porco

Estacionado na curva da rampa,
Subida, descida, ao ermo,
Ascenção e queda
A multidão fala e se esfrega por trás,
Porcos abstraídos.
À força de xingar o concreto se desvanece
E sonho, sonho
Com o dia em que não mais viver.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sem Título 2

Não adianta, tudo se esvái pelo ar. O incenso,a fumaça, tal qual minhas células ou suas células, e também as doenças, se espalham como o sal jogado no mar.
E o retrato de minha falecida avó agora me acena com a morte. Uma pena não poder eu, no momento, transplantar esse espanto e sentir, ausente das paredes que me cercam, seus momentos de vida. Vida esplêndida, quão notãvel não era minha avó; dela minha mãe ganhou o carinho benigno de saber amar e respeitar,- e não se recordem, apesar de eu mesmo o ter feito, do matrimônio pois que não é a intenção da expressão (se não mudo é por pirraça) – literalmente.

Em minha infância parece que meu pai se ausentou na Bahia por algum tempo, trabalhando, e durante este tempo e em muitas outras circunstÂncias, permanecia em casa de meus avós, aliás, todo o circuito que percorria dia após dia se limitava a alguns quarteirões ao redor dali.
Ia com meu avô para à escola e corria na sua frente desafiando o velho, possuía vários machucados nos joelhos em função disso, como qualquer outro garoto os possuía em função de outras coisas. De vez em qunado haveria um caminhão vendendo peixes no caminho, do lado de onde minha avó estudara. Eu ia de galochas e me marcavam aqueles momentos em que a rua se enchia do aroma fétido e aglutinava possas no asfalto irregular. Não me incomodava de todo.

Houve uma ocasião em que fui deixado na escola após o horário da saída por um mal-entendido entre a empregada da casa e minha avó. Uma achava que a outra fosse me buscar à tarde. Era um colégio de freiras que não possuía as cinco últimas séries para se completar o ensino médio, éramos todos crianças. E nessa tarde estava ali sozinho, todos meus colegas já haviam partido, levados por quem fosse.
Não sei se era a primeira vez que ficava sozinho mas certamente me foi espantoso, as lágrimas começavam a me umedecer os olhos e logo fui recolhido por um uma freira – única cenoura que restava na terra. Vi rapidamente ela pedir à outra que tentasse telefonar para meus responsáveis, mas logo fui conduzido novamente pela mão, passamos por um elevador e entramos em meio segundo em um apartamente escuro. A freira ligou sua novela diária das oito enqaunto buscava encher uma mesa com o que dispunha para o lanche da tarde: biscoitos variados, pão, manteiga, geléia, presunto, suco, água. Eu me fatava de comodiade ainda que ninguém houvesse dado sinal de que voltaria para casa cedo. E acaba assim, toda a imagem se dissipa como um flash.

Sem Título 1

Reconstei-me sobre as almofadas e permiti a meus olhos mirarem o branco teto-parede-armário de meu cômodo. Pensava outra vez no vazio, como de tempos em tempos sentia a imensidão do vácuo que havia reservado para o ócio – não propriamente para ele, mas ao menos para seu emprego. No entanto, nessas horas perdia toda a ânsia por um objetivo, em uma faixa graduada eu era um ponto baixo na falta de interesse. A faixa é branca também, de tal modo suas marcações e eu. Formávamos um todo ininteligível no vazio do branco psiquiátrico.
O telefone tocou. Era meu aniversário, as pessoas continuavam a ligar pondo em prática o ritual anual da redundância. “Muitas felicidades, anos felizes, parabens, etc, etc...”. Ambos, eu e meu interlocutor, usualmente quando este me era próximo parecíamos no sdar conta dos pensamentos, às vezes de sua qualidade, mas de costume sobre sua simples existência, que fluíam pararelas, indiferentes à fórmula monótona e evasiva.
Que haveria de pensar sobre meu aniversário? Que era o dia em que todos sentiam-se na obrigação de reavivar a própria imagem em minha massa cinzenta? Que deveria ser um dia de paz, sossêgo e reflexão mais do que todos os outros?
Pensei em como um aniversário fica bem no papel, sem explicações, e recoredei-me do best seller infanto-juvenil que me tinah instigado às letras quando ainda desconhecia o prazer das linhas, a imaginação quando ainda desconhecia o universo subterrâneo que, sem fazer-se ausente em lugar algum, rege o farfalhar burburento, humano.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ruth 1

Ruth. Não bastava ser fervorosa, ela nunca se livraria de seu câncer. As contas desfiando por seus dedos, uma após uma, outra após a outra, dia e noite, o cristo a olhando, que ódio aquela figura não lhe inspirava. O algoz de seus dias, impositor de muros.
Tenho um amigo que possui outra espécie de muro, uns o conseguem enxergar por entre, outros ricocheteam e zunem em uma antipatia mal compreendida, despeito de uma ofensiva inexistente - tarado ele é, mas daqueles que não dão corda e nem se apercebem disso.
Afinal são tarados aqueles que espiam demais ou pretendem alimentar sua curiosidade e jogar resíduos intrigueiros pelas quadras anexas. Tarados de amor pela vida em alguma estatística. Muito baixa.
Mas o muro de Ruth não era da mesma natureza que a de Pedro, que ainda era um pouco peneira, o muro de Ruth era de todos e seu particularmente ali, naquele momento em que lhe restavam (necessario fechar os olhos) trinta mil expirações – o era gradativamente desde que recebera a notícia.
Fora seu falecido esposo que a dera, ela não suportava médicos, não podia com os jalecos brancos, talvez porque fosse em parte uma louca temendo ser descoberta. Ele não temia a morte e por isso nem mesmo chorara, a tristeza ficava para o acaso, para após o girar da roleta. Então ele sentiria sua falta como se lhe houvessem tirado as víceras e nunca mais voltaria a gozar a vida como naqueles anos que precederam. Não, ele não sabia disso, e se pudesse escolher entre desvelar ou não, ele por certo não o faria.
- Estive com o doutor hoje.
- […]
No estágio em que as coisas caminhavam, não bastou a Eusébio mais do que uma piscar de olhos para permitir a Ruth possuir a certeza já ansiada de sua morte.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

23

É a estaticidade que leva ao tédio?
O prazer é atingido na mudança do estado das coisas, não propriamente em sua existência ou permanência, mas na reviravolta que transforma.
Se assim fosse e ao mesmo tempo tudo fosse um fluxo perpétuo, o tédio não existiria. Mas existe?

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Kakfa

"Eu apenas consigo dar conta das atividades práticas mais simples através de grandiosas cenas sentimentais...Quando quero ir para direita, vou primeiro para a esquerda e depois ambiciono melancolicamente ir para a direita...O motivo principal parece ser o temor: não preciso sentir medo de ir para a esquerda, pois para lá eu nem quero ir, no fundo"